15/09/2017

diários do luto #1

é realmente uma pena que esse blog não existisse no início do ano. com certeza ter um lugar para desabafar teria sido bem útil em alguns momentos do luto que venho vivendo desde que perdi minha mãe.


a minha intenção agora é criar uma série de posts que documentem minha travessia por esse período na expectativa de não só desabafar, mas também de ajudar pessoas que também estejam passando por isso, ou que sejam meramente curiosas. a morte é sim bastante curiosa e com o tempo nosso luto se torna uma inconveniência para aqueles que estão à nossa volta.

o que passou nos últimos meses (sete, para ser mais exata) não poderá mais ser registrado em palavras que façam algum sentido. mesmo assim, nesse primeiro post da série, vou tentar reunir tudo que for possível.

minha mãe faleceu na tarde ensolarada do dia 26 de janeiro deste ano e foi sepultada no dia seguinte. importante frisar, porém, que meu luto começou bem antes disso.

no início de 2016 recebemos o diagnóstico do câncer dela: pâncreas estágio IV com metástase em alguns órgãos (fígado, ossos e etc). eu evitei de todas as formas buscar no dr. google qualquer informação sobre a doença... eu sabia que era melhor assim. e foi.

2016 também foi o ano do meu casamento e em meio a esse turbilhão de emoções, eu tentava não me sentir culpada por estar tão feliz com a expectativa do grande dia. ela também estava radiante e era o que sempre dizia aos médicos "em setembro minha filha vai casar e preciso estar lá". os médicos nunca deixaram que ela soubesse da gravidade do seu quadro, mas talvez lá no fundo ela soubesse. talvez.

unindo todas as suas forças - e avisados de uma melhora incrível de seu estado geral com desaparecimento de algumas metástases e redução do tumor no pâncreas - no dia 3 de setembro ela estava lá, me vendo casar com o rodrigo e mais radiante que nunca.

foto: clarissa lanari

quando alguém tão próximo de você recebe um diagnóstico de câncer, esse diagnóstico te contamina também. é como se ligassem um cronômetro no seu ouvido e ele jamais permite que você esqueça: o tempo está passando. a pessoa pode estar bem, sorridente e de alguma forma, forte, mas você sabe que lá dentro os tumores estão se multiplicando e indo de um lado a outro contaminando o que estiver no caminho.

digo isso agora, mas durante os nove meses (mais ou menos) de tratamento da minha mãe, eu na verdade me mantive bastante otimista. minha marília sempre foi dura na queda e até o último dia eu sempre acreditei que ela daria a volta por cima. ela lidava com o câncer como se estivesse lidando com uma gripe: se agigantou diante da adversidade e manteve-se firme até seu último momento.

foi somente quando o último dia chegou que entendi que de fato aquela guerra estava chegando ao fim. nem mesmo quando ao invés de receber alta, soubemos que ela precisaria voltar para o cti. nem mesmo quando nos disseram que ela precisaria ser sedada e entubada... nem mesmo quando seu coração já batia fraco no monitor (apesar de fortalecer ao perceber nossa presença ao seu lado)... nada disso foi capaz de tirar de mim o direito de ter esperanças. e no fim, doeu... não fazia sentido e eu era incapaz de entender "onde foi que deu errado".

fui mais forte do que poderia imaginar... nessas horas a gente sempre tira forças de algum lugar. mas durante muito tempo, até ontem, para ser mais precisa, a imagem da minha mãe se tornou um borrão na minha cabeça e eu senti medo, todos os dias, de que talvez eu fosse me esquecer do rosto dela, do sorriso, da voz... eu realmente tive medo.

foto: pinterest
hoje enquanto tomava banho me lembrei dela, como sempre faço. geralmente é nesse momento do dia que permito que as emoções se aflorem, para rir ou chorar, com lembranças de minha mãe e de tempos mais felizes, quando eramos completos. para minha surpresa seu rosto estava perfeito em minha memória como se eu a tivesse visto ontem. seu sorriso largo surgiu na minha cabeça com a nitidez da realidade que vivemos durante quase 28 anos juntas.

foi uma lembrança que me fez bem e que não veio acompanhada da dor... só de saudade e amor! foi então que percebi que dei mais um passo na direção da superação. venci mais uma etapa! consigo me lembrar de você, marília vaidosa, com sorriso largo, cabelos cor de fogo, como sempre foi e como sempre será, até o infinito.

Um comentário:

  1. Eu estava lendo as suas postagens para conhecer melhor o seu blog e aí me deparo com essa postagem. Eu compreendo exatamente o que você está sentindo. Outubro do ano passado perdi a minha amada mãezinha para essa doença terrível que é o câncer. No momento que a minha mãe estava no hospital eu fui muito forte. Após a morte dela, a depressão chegou com tudo. A gente segue de alguma forma por elas, né? A saudade será eterna, porque o amor entre mãe e filha é forte demais. Força para nós duas. Também desabafo, às vezes, no meu cantinho. Inclusive, para homenageá-la.

    P.S. Adorei o seu blog.

    Beijinhos.

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