[resenha] a revolução dos bichos

os sete mandamentos

1. qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. o que andar sobre quatros pernas, ou tiver asas, é amigo.
3. nenhum animal usará roupa.
4. nenhum animal dormirá em cama.
5. nenhum animal beberá álcool.
6. nenhum animal matará outro animal.
7. todos os animais são iguais.
(p. 25)

foto: a teoriadetodasascoisas/ana mattos
falo por experiência pessoal, mas talvez outras pessoas também se identifiquem com isso: quando me proponho ler um livro que carrega o título de "um clássico", parece que ele passa a pesar uns 30kg e a responsabilidade se torna enorme. "será que vou entender?", "será que vou gostar?".

quando decidi que leria a revolução dos bichos de george orwell, foi exatamente assim que me senti. porém, ao longo da leitura, a tarefa foi se tornando cada vez mais fácil e a genialidade do livro fez com que sua leitura se tornasse simples... simples, mas nem tanto!

nas palavras do próprio autor, seu intuito era "denunciar o mito soviético numa história que fosse fácil de compreender por qualquer pessoa e fácil de traduzir para outras línguas" (p. 113). dito e feito, apesar de toda atmosfera política, a narrativa faz uso de analogias bem cotidianas para criar um texto simples e bastante didático.

a crítica feita aos regimes extremistas e totalitários é escancarada e cada virada de página te faz ir aos extremos da revolta com os absurdos que vão se desenrolando ao longo da trama. se existe aquela máxima que diz que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente, a revolução dos bichos é a ilustração perfeita desse cenário.

a história narrada se passa na granja do solar. lá, os bichos se revoltam contra sr. jones, seu dono, pois sentem-se insatisfeitos com tanta exploração, vivendo para trabalhar e sendo muito mal alimentados. 
"o homem é a única criatura que consome sem produzir. não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. mesmo assim, é o senhor de todos os animais." (p. 12)
inspirados pelas ideias de revolução do porco major, que certa noite conta aos bichos sobre um sonho que teve, em que viu como seria o mundo sem os homens, os bichos se revoltam contra seu senhor e o expulsam da granja do solar, que passa a ser reconhecida como granja dos bichos.

ilustração: ralph steadman
no começo as coisas vão bem com o nascimento do que batizam de animalismo, pautado pelos sete simples mandamentos que você leu no início desse texto. com o decorrer do tempo, uma divisão natural começa a acontecer. por serem mais inteligentes que os outros animais da granja, os porcos assumem a liderança, mas seus próprios conflitos afetam a relação com os demais bichos e a narrativa passa a abordar a relação de exploração entre os próprios animais, onde a instauração de uma tirania ainda pior que a dos humanos começa a tomar forma.

contada em apenas 112 páginas, a história de a revolução dos bichos, apesar de escrita durante a segunda guerra mundial (e publicada em 1945), é atemporal justamente por abordar questões de poder, opressão social e exploração, assuntos que seguem sendo constantemente debatidos. no fim, george orwell consegue nos dar boas doses de realidade com uma escrita tão simples e leve que nos deixa quase viciados.

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título original: animal farm: a fairy story
autor: george orwell
editora: companhia das letras
gênero: ficção/literatura estrangeira 

6 comentários:

  1. Oi Ana! Realmente eu também sentia esse peso dos livros ditos "clássicos". Mas já tive tantas experiências positivas, que agora mergulho nas leituras de cabeça. A Revolução dos Bichos foi um dos casos. E olha que eu li bem novinha (então o medo de não entender ou perder referências importantes era ainda maior). Maravilhoso demais. Recomendo o "Na Pior em Paris e Londres", do Orwell também. Um beijo!

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    1. Opa, já anotei a recomendação aqui e com certeza vai entrar para a minha lista de leitura! <3

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  2. Ana! Que delícia de resenha! Ainda não li o livro, mas já tinha o título guardado em mente. No entanto, nenhuma resenha já lida trouxe as reflexões abordadas em linhas e entrelinhas de forma a me deixar tão ansiosa para conferir. Ah, e seu cantinho é tão casa! Estou encantada!

    semquases.com

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    1. ahh, obrigada! :)
      espero que tope a leitura e goste do livro tanto quanto eu.

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  3. eu amo esse livro ♥
    que frase final foi aquela? arrepio só de lembrar
    eu adorei a linguagem simples pra falar de um assunto complicado. uma vez eu li que esse livro é sugerido pra crianças lerem nas escolas, em algum lugar que não lembro agora haha achei genial

    amei o layout novo :D

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  4. meu autor e meu livro favorito! ele faz questão mesmo de escrever simples, olha: 6 regras para escrever melhor disponível na p. 142 de "Como morrem os pobres e outros ensaios".

    e mais: ele cunhou o termo "guerra fria". amo!

    assim como amei seu layout. me sinto numa música do david bowie, amo amarelo e colagens.

    beijo!

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obrigada pelo comentário! respondo e visito todos os links que deixam aqui :)

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