uma metáfora sobre a (minha) vida

by - novembro 18, 2017

ou, sobre a chuva que vem de repente

o céu estava aberto e a moça de vestido laranja e sapatos baixos se colocou de pé no ponto de ônibus aguardando veículo que fosse carregá-la ao seu destino. a rua estava movimentada e o comércio ainda funcionava agitado.

aos poucos foi percebendo que o tempo começava a virar. primeiro o vento, em seguida o surgimento ainda tímido de algumas nuvens cinzas. sentiu-se tranquila pois o guarda-chuva estava na bolsa. imagina-se que também pensou consigo "coitado dos despreparados"... disso já não se pode saber com certeza, pois a cena toda era acompanhada a distância, por uma mulher que se debruçou na janela ansiosa pela tempestade que ia passar.  

o vento foi ganhando forças e as nuvens carregadas começaram a perder a timidez, formando uma grossa camada que escondia o céu azulado. a chuva se formava de maneira curiosa: parecia uma escola de samba pronta para cruzar a avenida, indo de um ponto a outro, servindo de espetáculo ao público.

a mulher debruçada na janela observava a cena com curiosidade.

a moça de vestido laranja abriu seu guarda-chuva num gesto confiante de quem tenta estar sempre um passo à frente. olhava para os demais pedestres: uns também já haviam aberto seus guarda-chuvas, outros corriam e procuravam abrigo em alguma loja, com a desculpa de estar procurando alguma coisa para comprar, ou debaixo de alguma marquise, sem tanto pudor. aprumou ainda mais seu corpo, como se fizesse um gesto de vitória: "essa tempestade não me pega!"

a chuva grossa começou a cair. 
a mulher olhava da janela.
a moça de vestido laranja orgulhava-se da sua precaução em forma de guarda-chuva.

a confiança parecia não ser virtude somente dela. perdendo a timidez, o vento soprava cada vez mais forte e fazia esvoaçar os cabelos e o vestido laranja da moça que começava a se incomodar. o guarda-chuva não a protegia do vento que insistia em levar a tempestade até ela.

num sopro repentino, lá se foi o guarda-chuva e com ele, lá se foi a calma da moça de vestido laranja.

ainda na janela, a mulher observava a cena: parecia impossível, mas a tempestade e o vento ganharam ainda mais força.  

a moça de vestido laranja - e agora sem guarda-chuva - dá alguns passos incertos na tentativa de recuperar o objeto que lhe foi tomado. distraiu-se a ponto de não perceber que o vento agora agitava mais que a chuva e soltava no ar pequenas folhas e pedregulhos. 

recuperou o guarda-chuva que havia caído a poucos metros e a mulher da janela pensou ter notado um pequeno sorriso no canto da boca da moça de vestido laranja que ainda se erguia distraída. tão distraída que não percebeu o que vinha em sua direção: ao se virar, o vento a atingiu em cheio com uma pedrada no peito. 

sem graça, curvada e derrotada, a moça de vestido laranja desistiu de esperar pelo ônibus. se pôs rente à calçada segurando seu guarda-chuva em frangalhos, acenou, entrou no táxi e partiu. a mulher da janela pensou:  "lá vai ela. certamente chegará ao seu destino, mas aposto: não esperava levar uma pedrada no caminho."

Leia também:

8 comentários

  1. Quando você lê um texto desses que apesar de simples e de fácil compreensão, pode se tornar algo tão complexo quanto a teoria das cordas.
    Estou perplexa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. eita! <3
      isso na verdade foi um sonho que eu tive, acredita? acordei sem entender nada e quando fui contar para alguém, pensei: "caramba, melhor metáfora da vida!"

      Excluir
  2. Nossa. Realmente uma pedrada dessas a gente nunca espera! Adorei o seu jeito de escrever. Muito bom! Parabéns! ♥.

    www.acessopermitido.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. obrigada, elcimar! <3
      não sou de escrever muitos textos desse tipo, mas curti bastante a experiência.

      Excluir
  3. mar menina, como assim? que narrativa que prende a gente e vai envolvendo, envolvendo...

    teu blog é todo bonitão, diga-se de passagem. Dá vontade de ficar e continuar olhando tudo.

    Beijocas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. ô, mafê! obrigada :)
      como falei ali em cima com a nath, isso na verdade foi um sonho que eu tive e depois, contando pra alguém me dei conta que isso era uma metáfora perfeita para ilustrar a vida da gente! rsrs

      Excluir
  4. Pedrada mesmo quem tomou foi eu lendo esse texto, moça!


    ResponderExcluir

obrigada pelo comentário! respondo e visito todos os links que deixam aqui :)